sábado, 26 de março de 2011

Papá volta...


Aborrecem-me as palavras, as recordações, esse todo que me envolve neste penhasco que um dia ruirá. Tento fugir para longe onde mais ninguém me veja o olhar preso nos teus passos…Partiste.
Deixaste que caíssem as palavras nesse silêncio que nos mata a saudade um do outro. Anoiteceu nesta manhã em que escrevo. Tornou-se tudo tão escuro e insondável. Tácito e imperceptível.
Nevoeiro cerrado esse que me adormece os olhos, que nos dissipa os passos cravados na areia ainda molhada. Necessito partir para longe, para outra terra que não esta, onde as palavras não saem exactas e descomunais.
Preciso ver esse mundo invisível, esse universo que me encobre a vontade de existir.
Quero alcançar esta nuvem, este horizonte contido nas mãos hábeis de quem me criou um dia. E porque me criaste? Que diferença faço aqui, nesta inconsciência de mim e do que me rodeia? Porque estou contida nesta caixa escura que me impede de avançar rumo a ti?
Hoje quero conhecer essas respostas que tanto anseio, esse prosseguir em  frente  rumo aos teus braços dóceis que me esperam (bem sei).
Torna-se tudo tão difícil quando a tua voz não paira sobre esta brisa que se dissipa no escuro, nestes buracos negros que consomem as certezas de ti.
Existes?
Acredito nessa fé mágica que me move novamente os caminhos pelo que destinaste que fosse. Vacilo é certo, quando não noto os teus passos na terra batida, naquele caminho que traçamos juntos, lembraste? Hoje estes passos prosseguiram por outros trilhos que não os que definiste, perdi a tua mão que me segurava. Deixei cair esta segurança pelas montanhas verdes destas novas terras.
Perdi-me…
Por favor volta…Vem salvar-me…Preciso de ti novamente.
Dá-me certezas, vontade de saltar estas janelas minúsculas que consomem o tempo escasso. Esse tempo que tão bem conheces!
Papá, volta…

sábado, 12 de março de 2011

Divagações



Sinto que perdi o rumo….Assumi passos que já não são os meus...
Ficou gasta, cansada. Apagaram-se as fotografias que lhe ilustravam a face jovem e trémula.
Perdeu-se aquela criança de olhos reluzentes que olhava as janelas em busca de outros tesouros. Perdeu-se nos recantos das casas já velhas, caiadas de branco.
A curiosidade já não lhe abraça o rosto em busca do seu peito pequeno, frágil como um botão de rosa perdido entre o orvalho da manhã.
A mudança já não volta, procurando as suas pisadas ainda perdidas. Ninguém volta para trás em busca da sua mão caída, inerte no tempo.
Ficou sozinha entre esses mares de terra que lhe marcam o rasto…
Quero apagar esse trilho, esconder que existo. Não quero mais perguntas vãs, mais explicações incompreensíveis… Apetece-me ficar só neste pedaço de mundo que ninguém vê... Quero permanecer perdida dentro do próprio eu que já não conheço…
Quero apagar esta identidade que me corrói por dentro, em busca de algo que já não tenho…certezas.
Não quero compreender nada, nem porque ris ou choras…não me interessa como estás, como me sinto, porque estou aqui ou que diferença faço aos teus olhos. Prefiro a ignorância que me adormece o dia e me apaga a noite.
Quero de volta esta ingenuidade que acordou a cama ainda quente…Quero rasgar as horas, os dias, os segundos. Quero escrever palavras mudas para que me matem este medo de tudo e de nada.
Deixa-me permanecer só, como naqueles dias em que me deitava e olhava os brinquedos caídos, as vozes caladas, o silencio escorrido nas paredes vagas… Essas recordações que formaram o que sou hoje…
Sinto que esses dias me guardam a boca selada, as mãos curiosas, o sono que me adormecia os olhos harmoniosos.
Não sei como integrar-me neste mundo de mil voltas, de inúmeras sensações, de porquês sem resposta. Preciso parar este túnel grotesco que me envolve os beijos, o toque, a pele alvacenta. Preciso dizer o que ficou preso na pequena caixa que me deste um dia…Preciso parti-la, deixar sair as lágrimas que me escorriam pela face sempre que te relembrava.
Tenho que enterrar esta raiva que carrega a arma escura que me enlaça no seu tormento.  
Às vezes olho os espelhos e não me vejo, procuro as lembranças de quem fui…mas não sou nada, não existo!
As histórias ainda esperam que lhes abra o ventre…
O tempo ainda sorri…
A lua ainda me vê…
Sei que ainda penso…
Isso basta-me…

Não preciso sentir que cá estás…Basta-me apenas saber que ainda estou só, como sempre estive…